Em 1999, publiquei na Ostomy Wound Management uma revisão sobre a importância dos fatores de crescimento na cicatrização de feridas [1]. Na época, o tema ainda parecia distante do consultório. Hoje ele está no centro de quase tudo o que ensinamos no Instituto: plasma rico em plaquetas, membranas de fibrina, fibroblastos e exossomos dependem da mesma biologia.
O que são fatores de crescimento
Fatores de crescimento são proteínas sinalizadoras. Uma célula libera, outra recebe por meio de receptores na sua superfície, e a mensagem muda o comportamento de quem a recebeu: migrar, multiplicar, diferenciar ou produzir matriz [3].
Na pele, os mais estudados são o PDGF (derivado de plaquetas), o TGF-β, o VEGF, o EGF e os FGF. Nenhum deles age sozinho. O efeito depende da concentração, do momento e do ambiente da ferida [4].
As quatro fases e quem comanda cada uma
A cicatrização é descrita em fases que se sobrepõem [5]:
- Hemostasia. As plaquetas formam o tampão e liberam o primeiro pulso de sinalizadores, como PDGF e TGF-β, a partir dos seus grânulos.
- Inflamação. Neutrófilos e macrófagos limpam a ferida. Os macrófagos passam a produzir fatores que convocam a fase seguinte.
- Proliferação. Fibroblastos produzem colágeno, novos vasos se formam sob estímulo do VEGF e as células da epiderme migram para fechar a superfície.
- Remodelação. A matriz é reorganizada ao longo de meses e a cicatriz ganha resistência.
Por que algumas feridas não fecham
Em feridas crônicas, como as úlceras por pressão e as do pé diabético, a sequência trava. A inflamação se prolonga, enzimas degradam os próprios fatores de crescimento e as células perdem a capacidade de responder [4][6].
Foi esse o problema que orientou minha pesquisa desde o início. Antes dos fatores de crescimento, estudamos o papel dos lipídios de uso tópico, como os ácidos graxos essenciais, na proteção da pele contra lesões por pressão [2]. As duas linhas se encontram em um ponto: o tecido precisa de um ambiente que permita ao reparo acontecer.
Do laboratório às terapias atuais
A observação de que as plaquetas são uma fonte concentrada de fatores de crescimento levou ao desenvolvimento dos concentrados autólogos. Centrifugando o sangue do próprio paciente, obtém-se plasma rico em plaquetas (PRP) ou fibrina rica em plaquetas (PRF), que liberam esses sinalizadores no local de aplicação.
O passo seguinte da pesquisa olha para as células que respondem aos sinais e para as mensagens que elas trocam. Fibroblastos são os produtores de colágeno da derme. Exossomos são vesículas que as células liberam carregando proteínas e RNA, e são estudados como uma forma de modular o reparo sem transferir a célula inteira [6].
O que isso muda na formação do profissional
Para quem vai trabalhar com essas terapias, a biologia não é teoria de fundo. Ela define a indicação, o preparo, o momento da aplicação e a forma de ler um estudo com espírito crítico. Também define os limites: a resposta de cada paciente depende do tecido, da doença de base e de muitos fatores que nenhuma técnica controla sozinha.
É por isso que nossos cursos começam pela biologia do reparo antes de chegar à bancada, e é por isso que as normas da Anvisa e dos conselhos profissionais fazem parte do conteúdo.
Referências
- Declair V. The importance of growth factors in wound healing. Ostomy Wound Manage. 1999;45(4):64-80. PMID 10347511
- Declair V. The usefulness of topical application of essential fatty acids (EFA) to prevent pressure ulcers. Ostomy Wound Manage. 1997;43(5):48-54. PMID 9233238
- Werner S, Grose R. Regulation of wound healing by growth factors and cytokines. Physiol Rev. 2003;83(3):835-870. DOI 10.1152/physrev.2003.83.3.835
- Barrientos S, Stojadinovic O, Golinko MS, Brem H, Tomic-Canic M. Growth factors and cytokines in wound healing. Wound Repair Regen. 2008;16(5):585-601. DOI 10.1111/j.1524-475X.2008.00410.x
- Gurtner GC, Werner S, Barrandon Y, Longaker MT. Wound repair and regeneration. Nature. 2008;453(7193):314-321. DOI 10.1038/nature07039
- Eming SA, Martin P, Tomic-Canic M. Wound repair and regeneration: mechanisms, signaling, and translation. Sci Transl Med. 2014;6(265):265sr6. DOI 10.1126/scitranslmed.3009337
Conteúdo educacional destinado a profissionais da saúde. Não substitui avaliação clínica individual.